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domingo, 29 de novembro de 2009
très bizarre
Ah, os adoráveis primeiros anos de aquisição de uma nova língua e seus constrangimentos infinitos, dentro ou fora da sala de aula.
Tenho que ouvir uma versão em francês do Chapeuzinho Vermelho para responder umas questões. Sim, isso mesmo. Chapeuzinho Vermelho. A história que ouvimos desde que estamos no berço, mas contada em um idioma diferente, requer maior atenção, ajuda no enriquecimento do vocabulário e etc. Afinal, quem está aprendendo ainda a conjugar os verbos não vai sair ouvindo um áudio de Les Misérables do Victor Hugo.
Mas como é um daqueles áudios pra crianças, a narradora tem aquele entusiasmo típico de contadora de histórias infantis e faz ela mesma a voz do lobo, da Chapeuzinho, da avó, do lenhador. Junte a isso a sonoplastia típica de materiais do gênero: cantar de pássaros ao fundo, musiquinhas alegres quando a protagonista passeia pela floresta, trilha assustadora no encontro dela com o lobo.
Começo a gargalhar e tenho que parar o áudio. Acho que nunca terminarei isso. Não nessa encarnação. Merci, professeur.
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sábado, 21 de novembro de 2009
ábaco
O pátio enorme e lotado de crianças, abelhas sobrevoando os lanches, as filas intermináveis e barulhentas da cantina, o som estridente do sinal e o respeito que tínhamos dos alunos mais velhos, sempre reunidos em grupos intimidadores, convivem inseparáveis com o temor da matemática. De qualquer coisa que envolvesse números, enfim. Choros e ranger de dentes à noite, debruçada nos cadernos, não faltaram.
Claro que tudo isso desembocou numa reprovação aos 7 anos de idade. Em uma época que tal façanha ainda existia. Mais choro, mais ranger de dentes, aquela timidez na hora de entrar novamente em uma sala de aula, um ano depois.
Álgebra seria o menor dos meus problemas, quando inventava uma desculpa ao me perguntarem as horas e eu jogar no fundo da gaveta os reloginhos coloridos que ganhava de presente. Os preços parcelados nas vitrines das lojas eram um mistério bem encerrado em algum lugar que eu não tinha acesso. O troco da padaria podia ser em cédulas ou em uma mísera moeda de um centavo, eu não me importava. Eram coisas que existiam no mundo sem eu saber o motivo, mas que faziam parte da ordem natural da vida, como a fotossíntese, a guerra no Oriente Médio e o gás dos refrigerantes.
Os meus rituais de passagem para a vida adulta não eram mais apenas tirar título de eleitor ou passar no vestibular, mas poder responder que horas eram sem gaguejar e poder, um dia, ter uma conta no banco com certa tranquilidade.
Hoje os números se tornaram menos assustadores, mas ainda assombram e precisam das contas nos dedos amigos, meio encabulados debaixo da mesa ou atrás das costas.
Esses cálculos manuais falharam após um dia de calor escaldante, dentro de uma papelaria pequena, vazia e abafada, onde a atendente, talvez um pouco mais nova que eu, simpática e tagarela, se recostava sossegada na máquina de xerox para tirar duas cópias de um livro para mim por apenas 0,10. Sim, xerox a 0,10 se tornou uma espécie em extinção. As folhas iam saindo vagarosamente da máquina, sem pressa alguma.
Mais à noite, na faculdade, me avisam que paguei uma quantia absurda para cópias de páginas tão minguadas. O mal estar da infância, que despertava a angústia de viver num mundo regido por tantos números, me nocauteou como não fazia há muito tempo. Não era só o dinheiro perdido, mas uma ingenuidade besta que ficava carimbada na minha testa, diante de uma balconista supostamente cara-de-pau, sentada atrás do balcão de uma papelaria acanhada, rindo em frente a tela do computador enquanto os clientes não vinham.
No dia seguinte, a coincidência (e a falta de vontade em andar mais de uma quadra debaixo do sol para a outra papelaria mais próxima) me fazem voltar ao lugar pra comprar uma série de miudezas que me pediram. Várias canetas, lápis diversos, etc. A atendente de calça baixa e sorrisos terminava de fazer uma cópia para uma cliente. Pego as encomendas, espalho tudo no balcão envidraçado. Na hora de calcular tudo, os seus dedos se desmancham na calculadora, ela olha espantada pro visor: 126,00.
"Acho que fiz algo errado". Ela bate nervosamente a conta no teclado, um valor maluco salta novamente. Uns cliente entram, querem caderno, papel de recibo, querem isso e aquilo. Quando volta pra minha compra, ri sem graça, se atrapalha toda, faz recontagem, se perde.
Eu tive que rir, sem antes esclarecer que ria com ela e não o contrário. Resolvo tentar o imbróglio na máquina, faço conta de multiplicação em vez de adição, as risadas explodem dentro da papelaria. A luta virtual dá lugar ao embate no papel e caneta. Tiramos a prova, refizemos o cálculo várias vezes. Enfim, um valor certo.
Saio da loja guardando o pensamento de "viva e deixe viver". A vitrine reflete a moça atrás do balcão, vendo um vídeo no micro, sorrindo, do lado do ventilador rente ao chão.
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terça-feira, 17 de novembro de 2009
menu
Moça sorridente com mochila nas costas, na frente de um fundo supostamente psicodélico. A faculdade em questão anuncia com letras garrafais as inscrições para o vestibular de verão. A frase ao lado da mochila da modelo, é singela, límpida como um dia ensolarado: Ao entregar seus documentos na secretaria da Faculdade, você efetiva a sua inscrição e ganha uma McOferta do McDonald's.
Vou ali vazar os meus olhos e já venho.
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009
picardias estudantis

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segunda-feira, 9 de novembro de 2009
os embalos de sexta à noite
Aula de literatura. Estamos lendo um conto do Jorge de Sena, escritor português que se formou em Engenharia, mas também tinha talento para as Letras, deu aula na área na UNESP de Araraquara nos anos 60 e etc. O conto tem várias simbologias com sexo e religião, ótimo pro professor viajar litros.
Em um momento, ele desenha um obelisco na lousa e diz: gente, o que é isso?
*silêncio
Eu (desconfiada de onde ele queria chegar): é um pinto.
Professor: Ariane, por favor, diga bem alto pra sala o que é isso.
Eu: É UM PINTO, JENTZ.
*Todos riem. Professor discorre sobre como várias culturas expressam o pênis e símbolos fálicos em geral como representações da fertilidade, da ascensão pessoal e espiritual e etc.
Fim.
Tomara que na festa de formatura, não coloquem um obelisco no salão em minha homenagem.
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domingo, 1 de novembro de 2009
nem tão fantástico
Um dos motivos de eu acalentar o sonho de ser jornalista lá pelos 14 anos, foi minha paixão pelos colunistas sobre televisão que povoavam os jornais daqui de casa com comentários ácidos sobre a estreia da novela, do novo seriado ou daquele programa de auditório meio capenga, mas que meio mundo parava pra assistir. Como eu sempre adorei TV, cultura pop e derivados, achava que seria o emprego dos sonhos. Ok, desde então um estado meio Zeca Pagodinho deixaavidamelevar me fez mudar de rumos. Mas até hoje o coraçãozinho bate mais forte quando leio as resenhas dos cadernos culturais de domingo.
E uma das minhas ídolas absolutas no meio é a Bia Abramo, que escreve na Folha de S. Paulo.
E daí que um dos assuntos mais palpitantes do universo televisivo nacional desta semana é a queda livre do Ibope do Fantástico, que já foi um dos líderes da programação da Globo, "leva informação e entretenimento pra família brasileira há 36 anos", revelou beldades ao mostrá-las seminuas emergindo das águas nas vinhetas de abertura, e já deixou muita gente a beira do suicídio com a sua musiquinha melancólica de encerramento, despertando a lembrança de que o dia seguinte traria a segunda-feira.
O formato do programa se esgotou? é o fim da hegemonia da Vênus Platinada? é culpa da Internet? do mercado de DVDs? do Zeca Camargo? Eis que Bia Abramo, em sua coluna, escreve uma das coisas mais hilárias do mundo ao sugerir manobras modestas para livrar o Fantástico do limbo:
2) Proibir os apresentadores de sorrir: se você está em casa no domingo à noite, é porque ou bem o final de semana foi um fracasso, ou você está duro demais para ir ao cinema, ou está tão cansado que só aguenta ligar a TV. Em qualquer das hipóteses, você não está feliz - por que então forçar a barra?
Nem a Glória Maria, que também encheu do programa que ela mesma apresentava, definiria melhor. Plim-plim.
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terça-feira, 27 de outubro de 2009
relógio
Depois que os vivas de passar pra 2a etapa da seleção do mestrado se amenizam, é hora de encarar a realidade e correr atrás da parte mais pragmática, o que inclui voltar pra sua antiga faculdade pegar documentos que comprovem que sim, vc passou pela graduação e não é nenhuma maluca querendo encarar o mestrado como um hobby, a exemplo do Edward Norton em Clube da Luta, que assistia reuniões de todos os tipos de anônimos (Álcoolatras, Jogadores, Narcóticos...) só pra se sentir menos pior.
E assim que entrei no estacionamento onde os blocos altos se erguiam simétricos, cheios de pastilhas coloridas, como bloquinhos de Lego, voltados para a rua lá embaixo, eu me senti extremamente deslocada.
Quase nada havia mudado, a não ser uns certificados anunciando o reconhecimento de determinados cursos como os melhores segundo o Guia do Estudante, emoldurados na parede. O vai e vem de funcionários entediados, ostentando camisas brancas e crachás azuis, o tom marrom e laranja predominantes sob as lâmpadas fosforescentes, o chão liso e limpo demais, os balcões de granito, os canteirinhos verdes, um ou outro aluno deslizando pelas escadas, as placas de alumínio escovado anunciando os departamentos, a maquete da própria faculdade, guardada numa redoma de acrílico grosso, feita por uns estudantes de arquitetura e exposta na entrada, tudo era rigorosamente igual como há 3 anos atrás.
As únicas palavras que me vinham à cabeça ao lembrar de mim mesma como acadêmica ali eram apenas essas: "cansaço" e "ansiedade" com o adicional nada agradável e clichê de "se eu soubesse nesta época o que eu sei hoje". Os bons momentos tinham acontecido, mas eu não conseguia lembrar deles. Fiquei assustada.
Comecei a ficar louca de vontade de sair dali. Só conseguia pensar nas aulas que não matei, em alguns professores medíocres que eu devia ter ignorado, mas não o fiz, no pessoal do meu grupo de TCC que agora nem faço ideia de onde estão. Do fato de o melhor amigo que tive lá dentro nem sequer telefonar para mim hoje, pois agora tem sua própria casa, precisa pensar no aluguel, no supermercado, na luz, na água, no telefone.
Quando chegou o envelope com o histórico do curso, não resisti e abri. Achei minhas notas medíocres, com exceção de Teoria da Comunicação e Filosofia, que eu adorava. As matérias registradas no papel me pareciam completas estranhas, como um curso de Física Quântica. Mídia, Administração, Mercadologia, Legislação, Computação Gráfica. Me perguntei como tive saco pra estudar tudo aquilo.
Talvez eu não tive, pois as notas variavam de 6 a 7. Me senti extremamente envelhecida, procurando o meu neto pra entregar a ele o documeto que lhe pertencia, batendo a minha bengala naquelas paredes todas idênticas. Automaticamente, minhas costas ficaram curvadas.
Finalmente fui embora. E se toda a vez que eu tiver que voltar, eu for destinada a carregar essa melancolia que só vai passar depois de uma noite de sono, espero manter uma certa distância.
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